Enflonsia: novo anticorpo contra o VSR já tem aprovação no Brasil

Embalagem do Enflonsia, anticorpo com clersovimabe para prevenção do VSR em bebês
Em 30 de março de 2026, a Anvisa aprovou o registro do Enflonsia (clesrovimabe), da MSD, indicado para prevenir a doença do trato respiratório inferior causada pelo vírus sincicial respiratório (VSR) em recém-nascidos e lactentes que nascem durante ou entram em sua primeira temporada do vírus. O VSR é o principal responsável pela bronquiolite em bebês e a doença costuma ser mais grave nos primeiros seis meses de vida, especialmente em prematuros e em crianças com cardiopatia congênita ou doença pulmonar crônica da prematuridade. A chegada de mais uma opção preventiva amplia as escolhas disponíveis para as famílias e para o pediatra.

O que é o Enflonsia e por que ele não é uma vacina

O clesrovimabe é um anticorpo monoclonal totalmente humano que se liga à proteína F do VSR, a estrutura que o vírus usa para entrar nas células do trato respiratório. Ao bloquear essa entrada, ele impede que a infecção evolua para as vias respiratórias inferiores. A diferença em relação a uma vacina é essencial. A vacina estimula o organismo a produzir os próprios anticorpos, o que leva algumas semanas. O Enflonsia entrega o anticorpo já pronto, o que caracteriza uma imunização passiva e garante proteção sem depender da resposta imune do bebê. Por isso pode ser aplicado desde o nascimento. A molécula tem uma modificação estrutural que prolonga sua permanência no organismo, com meia-vida de aproximadamente 44 dias. Segundo os dados de eficácia clínica, a proteção de uma dose única pode se estender por até 6 meses.

Como é a aplicação

De acordo com a bula aprovada pela Anvisa:
  1. Dose única de 105 mg, em injeção intramuscular de 0,7 mL, na face anterolateral da coxa. Para crianças menores de 12 meses, a dose é a mesma independentemente do peso.
  2. Bebês nascidos durante a temporada de VSR podem receber a partir do nascimento. Os nascidos fora da temporada devem receber uma vez antes do início da sua primeira temporada.
  3. Bebês submetidos a cirurgia cardíaca com circulação extracorpórea durante a temporada devem receber uma dose adicional após a estabilização, porque o procedimento reduz os níveis do anticorpo no sangue.
  4. Pode ser coadministrado com as vacinas do calendário infantil, em seringa separada e local de aplicação diferente. Não interfere na resposta imune às vacinas aplicadas no mesmo dia.
É um produto de venda sob prescrição e deve ser administrado por um profissional de saúde.

O que mostram os estudos clínicos

No estudo de Fase 2b/3 controlado por placebo (Protocolo 004), conduzido em 22 países com bebês prematuros e nascidos a termo, os resultados nos 150 dias após a dose foram:
  1. 60,4% de redução nas infecções respiratórias baixas associadas ao VSR que exigiram atendimento médico
  2. 84,2% de redução nas hospitalizações associadas ao VSR
  3. 91,7% de redução nos casos graves, com hipoxemia grave ou necessidade de oxigênio e suporte ventilatório
Em um segundo estudo (Protocolo 007), com bebês de maior risco, como prematuros e crianças com doença pulmonar crônica ou cardiopatia congênita, as taxas de infecção e hospitalização foram comparáveis às do palivizumabe, imunizante já usado nesse grupo e que exige de 3 a 5 doses mensais. As reações adversas mais frequentes foram vermelhidão no local da injeção (4,4%), inchaço no local (3,2%) e erupção cutânea (2,3%), com a maioria dos eventos de intensidade leve ou moderada. O produto é contraindicado para bebês com histórico de reação de hipersensibilidade grave a qualquer um de seus componentes.

O que a Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda

O Calendário de Vacinação da SBP 2026/2027 já inclui o anticorpo monoclonal contra o VSR, com dose única no primeiro ano de vida, o mais precocemente possível. Pontos que ajudam a esclarecer as principais dúvidas das famílias:
  1. Existem duas estratégias eficazes: a vacinação da gestante a partir da 28ª semana e a aplicação do anticorpo monoclonal (nirsevimabe ou clesrovimabe) no bebê.
  2. Para recém-nascidos de mães não vacinadas contra o VSR, a SBP recomenda a aplicação do anticorpo preferencialmente na maternidade, em qualquer época do ano.
  3. Como ambas as estratégias são altamente eficazes, não se recomenda o uso combinado em crianças a termo e sem comorbidades. Há exceções, como bebês de mães imunocomprometidas, de gestantes vacinadas menos de 14 dias antes do parto, prematuros com menos de 37 semanas e crianças com maior risco de infecção grave.
  4. Para o clesrovimabe, não há, no momento, recomendação de dose adicional entre 12 e 23 meses. Já o nirsevimabe tem dose ajustada ao peso e previsão de dose para esse intervalo em crianças de maior risco.
A escolha entre as opções deve ser feita com o pediatra, considerando a idade gestacional, a época do ano, as condições clínicas do bebê e se a mãe foi vacinada durante a gestação.

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